Astronomia Brasil
notíciasNASA

Possível planeta de segunda geração resolve caso não solucionado do Hubble da NASA

A gaseous planet in the right foreground, seen mostly in silhouette, orbits a small, white star in the background at left. The star is surrounded by a thin, bright white disk tilted from lower left to upper right. A semi-transparent tail of material comes off the planet toward upper right. Distant stars dot the black background of space.
Esta representação artística mostra uma possível explicação para as abundâncias químicas incomuns detectadas pelo Hubble Space Telescope, da NASA, no sistema HS 0209+0832: um planeta de segunda geração orbitando uma estrela anã branca.

Uma investigação minuciosa realizada por astrônomos solucionou um caso arquivado nos dados do NASA’s Hubble Space Telescope. Em um estudo publicado na segunda-feira na Nature Astronomy, pesquisadores relatam ter descoberto uma surpreendente pista química que indica que a estrela anã branca HS 0209+0832 pode abrigar um planeta de segunda geração.

Uma anã branca é o núcleo remanescente de uma estrela de baixa massa que consumiu todo o seu combustível nuclear e perdeu para o espaço seu envelope externo de gás e poeira. Um planeta de segunda geração é um mundo que se forma ao redor do remanescente estelar a partir do material ejetado por ele.

“Em vez de o estágio de anã branca ser uma espécie de epílogo para a história de uma estrela e seus planetas, esta pesquisa aponta que os sistemas com os quais estamos familiarizados podem ser apenas o primeiro capítulo de uma narrativa potencialmente muito mais longa, com o surgimento de alguns novos personagens. Essa é uma perspectiva realmente empolgante para investigar”, afirmou Jamie Williams, astrônomo e autor principal, doutorando na University of Warwick, no Reino Unido.

A Terra e os outros planetas do nosso sistema solar são planetas de primeira geração, formados a partir do material que sobrou do nascimento de uma estrela.

Illustration divided into quadrants, showing the evolution of a star system over time. The upper left is labeled 1. Sun-like star. It shows a small, glowing yellow star centered with other faint stars in the background of space. The upper right quadrant is labeled 2. Red giant. It shows a much larger, puffy orange-red star with a yellow glow within. The bottom left quadrant is labeled 3. White dwarf with second-generation protoplanetary disk, showing a bright white star, smaller than the original Sun-like star, surrounded by a glowing dusty blueish-white disk that is brighter closer to the star. The lower right quadrant is labeled 4. Accretion of a second-generation planet. It shows a similar star to quadrant 3, but the disk is reduced in size and is more purple in color. A planet orbits to the lower left of the star. The planet is larger than the star and has a faint tail leading back to the disk around the star.
Esta representação artística, sem escala, imagina a evolução de uma estrela semelhante ao Sol (1) para uma gigante vermelha envelhecida (2) e, depois, para uma pequena e brilhante anã branca cercada por um disco formado por suas camadas externas ejetadas (3), a partir do qual se forma um planeta de segunda geração (4). — Crédito: Ilustração: NASA, ESA, Leah Hustak (STScI)

“O que Hubble está nos mostrando neste sistema de anã branca é algo que nunca vimos antes: uma alta abundância do elemento nióbio, cuja assinatura eu desconhecia quando a encontrei pela primeira vez nos dados de arquivo”, afirmou Williams.

Quando Hubble observou a estrela pela primeira vez, em 1999, os dados continham cerca de 100 características químicas que não puderam ser identificadas. Williams voltou a esses registros munido de um banco de dados químico atualizado e descobriu que o nióbio correspondia a muitas das características misteriosas.

Williams explicou que, embora o nióbio seja encontrado em nosso sistema solar e tenha diversos usos na Terra, inclusive em joias e dispositivos de diagnóstico por imagem, a quantidade encontrada por Hubble no sistema HS 0209+0832 aponta para um planeta que não se formou no nascimento de uma estrela, mas a partir do material ejetado quando ela morre.

“O nióbio e outros elementos mais pesados que o ferro são astronomicamente especiais porque, ao contrário de muitos elementos comuns, não são formados nos núcleos das estrelas por fusão termonuclear”, afirmou Nicholas Stone, astrofísico teórico da University of Wisconsin – Madison e membro da equipe de pesquisa. “Em vez disso, esses elementos pesados só podem ser sintetizados nas condições exóticas que surgem brevemente no interior de estrelas moribundas. A presença de nióbio é um indicador dessas convulsões de ‘morte’ e da expulsão das entranhas da estrela moribunda para o espaço.”

Depois que a estrela ejetou esse material enriquecido quimicamente, a equipe teoriza que parte dele se aglutinou e formou um planeta gigante gasoso. O restante do material ejetado se dispersou há muito tempo, mas o planeta permanece.

“Quando Jamie me perguntou sobre o nióbio em relação a este estudo, fiquei realmente perplexo, pois esse elemento não havia sido identificado em nenhuma outra anã branca analisada até então. Quando percebemos que ele estava presente, tudo se encaixou”, afirmou o astrônomo e coautor do estudo Boris Gaensicke, também da University of Warwick.

Line graph titled HS 0209+0832, White Dwarf Atmosphere Features. Hubble Space Telescope spectral data is shown in white, compared with a best fit model in red. The vertical y axis is labeled Brightness, with brighter at the top and dimmer at the bottom. The horizontal x axis is labeled Wavelength of light, angstroms. One-third of the way across the x axis is labeled 1452. To the right of the graph’s center is angstrom label 1453, and the right edge of the graph is labeled angstrom 1454.
Three dramatic dips in the spectrum are labeled with element names and abbreviations: Niobium, Nb, Nickel, Ni, and Calcium, Ca. The niobium Hubble data and model match well and appear to the right of the 1452 angstrom label. To the right, Hubble’s nickel data is much dimmer than the model, appearing just left of the graph’s center. Hubble’s data for calcium is a little dimmer than the model, and appears to the right, about one-sixth of the way from the right-hand edge of the graph.
O espectro do Hubble Space Telescope, da NASA, mostra as abundâncias incomuns de certos elementos encontradas no sistema HS 0209+0832. As quedas indicam onde o nióbio, o níquel e o cálcio estão absorvendo luz; por isso, menos luz dessa parte do espectro chegou a Hubble. — Crédito: Ilustração: NASA, ESA, Leah Hustak (STScI)

A equipe de pesquisa confirmou as observações de Hubble com dados da missão aposentada FUSE (Far Ultraviolet Spectroscopic Explorer), da NASA, que também mostrou fortes assinaturas de nióbio no sistema HS 0209+0832.

O TESS (Transiting Exoplanet Survey Satellite), da NASA, também observou a anã branca durante quatro meses, permitindo detectar variações periódicas de brilho que indicam que um planeta orbita a uma distância de cerca de 3,7 milhões de milhas (6 milhões de quilômetros), muito mais perto do que Mercúrio orbita o Sol.

A equipe de pesquisa estima que o planeta candidato seja um gigante gasoso aproximadamente do tamanho de Júpiter e que esteja perdendo rapidamente sua atmosfera. Como a estrela anã branca é relativamente jovem, ela ainda está muito quente e provavelmente bombardeia esse planeta com energia que remove seu material externo. Isso pode fazer com que o planeta tenha uma cauda de material semelhante à de um cometa, formando um disco ao redor da estrela anã branca e caindo de volta sobre sua superfície, o que levaria Hubble a detectar o nióbio ao estudar a estrela. Apesar dessa perda de massa, Williams afirmou que o planeta provavelmente não é um fenômeno temporário no radar cósmico.

“Se o planeta de segunda geração existir, acredito que provavelmente sobreviverá. Com o tempo, a anã branca esfriará e então manterá uma temperatura constante, com o planeta em sua zona habitável estável por milhões de anos”, afirmou Williams.

Williams acrescentou que ainda há muito trabalho a ser feito para compreender esses tipos de sistemas — como os planetas de segunda geração se formam, quão comuns ou raros são e como evoluem em órbita ao redor de uma estrela “morta”. Ele usará Hubble para investigar essas questões nos próximos anos, na esperança de reunir dados e estatísticas substanciais sobre esses novos tipos de corpos celestes.

“Acredito que esta pesquisa é um exemplo importante de que a descoberta científica não segue um caminho linear”, afirmou Gaensicke. “Muitas vezes, é preciso aquele momento mágico em que as pessoas discutem as grandes questões que têm em mente e percebem que, juntas, podem encontrar respostas inesperadas.”
—

O Hubble Space Telescope está em operação há mais de três décadas e continua realizando descobertas inovadoras que moldam nossa compreensão fundamental do universo. Hubble é um projeto de cooperação internacional entre NASA e ESA (European Space Agency). O Goddard Space Flight Center, da NASA, em Greenbelt, Maryland, gerencia o telescópio e as operações da missão. A Lockheed Martin Space também apoia as operações da missão em Goddard. O Space Telescope Science Institute, em Baltimore, administrado pela Association of Universities for Research in Astronomy, conduz as operações científicas de Hubble para a NASA.

Logotipo do Facebook

@NASAHubble

@NASAHubble

Logotipo do Instagram

@NASAHubble

Imagens e vídeos relacionados

Sistema HS 0209+0832 (representação artística)

Esta representação artística mostra uma possível explicação para as abundâncias químicas incomuns detectadas pelo Hubble Space Telescope, da NASA, no sistema HS 0209+0832: um planeta de segunda geração orbitando uma estrela anã branca.

Espectro de Hubble da anã branca HS 0209+0832

O espectro do Hubble Space Telescope, da NASA, mostra as abundâncias incomuns de certos elementos encontradas no sistema HS 0209+0832. As quedas indicam onde o nióbio, o níquel e o cálcio estão absorvendo luz; por isso, menos luz dessa parte do espectro chegou a Hubble.

Anã branca HS 0209+0832 ao longo do tempo (representação artística)

Esta representação artística, sem escala, imagina a evolução de uma estrela semelhante ao Sol (1) para uma gigante vermelha envelhecida (2) e, depois, para uma pequena e brilhante anã branca cercada por um disco formado por suas camadas externas ejetadas (3), a partir do qual se forma um planeta de segunda geração (4).

An artist's concept image of a white dwarf star with an orange disk of material around it. The NASA

Estrela moribunda cria um planeta completamente novo (vídeo)

E se a morte de uma estrela pudesse dar origem a um planeta inteiramente novo? Uma nova análise de dados de arquivo de Hubble aponta para a possibilidade de estrelas anãs brancas “mortas” abrigarem sistemas planetários de segunda geração.

Fonte: NASA